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Chegaram as férias escolares - o problema é se chegam também as notas negativas
Enviado por Domingo, Dezembro 20 @ 12:48:24 CET por Amaral

Educação O seu filho vai ter uma ou mais negativas? Se já sabe que sim, preocupe-se. Se não sabe responder, preocupe-se ainda mais. E, num caso ou noutro, actue, aconselham os especialistas.
Se as dificuldades de aprendizagem dos alunos do 2.º e 3.º ciclos devem ser atacadas de uma forma, as dos mais novos e as dos mais velhos exigem estratégias diferentes.

Quem tem filhos a estudar corre o risco de, nos próximos dias, olhar para uma pauta e ver uma ou mais negativas. Se isso lhe acontecer, nem pense em reagir como se tivesse apanhado um balde de água fria: se é surpresa, não devia ser e, se ainda não tomou medidas, já devia ter tomado. Esta é a perspectiva dos especialistas em Psicologia da Educação que avisam que, às más notas, não se deve responder nem com indiferença nem com recriminações e dramatismo. A situação exige reflexão e acção - e imediatas. "Já não é cedo", alertam.

Dulce Gonçalves, investigadora e professora universitária, trabalha com crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem no Centro de Psicologia Clínica Educacional de Lisboa e tem "a certeza" de que, na próxima semana, receberá pais em lágrimas. Teresa Martinho e Paula Gonçalves, responsáveis por centros de explicações de Coimbra e Lisboa, respectivamente, esperam - por ser costume - uma importante vaga de inscrições na primeira semana de Janeiro.

Estes são indícios de que, para muitos dos alunos que anteontem terminaram o primeiro período de aulas, estas férias não são sinónimo de tranquilidade; e também de que, para os pais, a situação não é, igualmente, fácil, sobretudo quando são apanhados de surpresa, sinal de que merecem negativa a comportamento.

"O processo de aprendizagem dos filhos não começou ontem. Por onde é que têm andado?", provoca Pedro Sales Rosário, professor na Universidade do Minho e responsável pelo Grupo Universitário de Investigação em Auto-Regulação. João Lopes, especialista em problemas de comportamento e de aprendizagem e professor na mesma universidade, suaviza a crítica implícita, lembrando que as "surpresas" acontecem, especialmente, no quinto ano de escolaridade: "Afinal, é o primeiro confronto das crianças e dos pais com a avaliação quantitativa", comenta.

Quem desde o início do período tiver acompanhado diariamente os filhos - folheando os livros e os cadernos de apontamentos e monitorizando a realização dos trabalhos de casa de forma a detectar e a colmatar de imediato qualquer dificuldade - das duas, uma: ou evitou as negativas ou já devia ter arranjado maneira de as evitar no próximo período. Quem apanhar o tal balde de água fria deve, agora, fazer por recuperar o tempo perdido. Certo, concordam os três investigadores, é que "não é momento para punir ou carpir", mas para agir.

Antes de mais, há que reunir dados e reflectir sobre eles, aconselham. E o primeiro passo é abrir as mochilas, pegar nos testes e analisá-los. "Quais são as dificuldades da criança? Erra tudo ou deixa sistematicamente respostas incompletas? Não sabe interpretar as perguntas? Responde "ao lado"?". Quem não se sentir capaz de proceder a esta tarefa "pode e deve" recorrer aos serviços de Psicologia e Orientação da escola, que foram criados, precisamente, para estas situações, continua Dulce Gonçalves.

Certo é que a avaliação da dimensão do problema e a estratégia para o resolver - esteja o aluno no 5.º, 7.º ou 9.º ano - dependem da resposta àquelas e a outras perguntas. "Pode tratar-se de uma dificuldade pontual, de fácil resolução. Se se chega à conclusão de que criança não tem métodos de estudo, por exemplo, não é arranjando um explicador, "alguém que estude por ele", que se resolve o problema, concordam os especialistas. Mas se as negativas denunciam a falta de bases, alertam, então "a situação é séria".

"Problemas no cálculo significam, agora ou mais tarde, dificuldades a Física e Química e a Geografia; dificuldades na leitura e na escrita representam complicações em todas as disciplinas, do Português à Matemática", aponta a investigadora de Lisboa, que sublinha que, neste caso, de nada serve pedir à criança que estude mais.

Nos casos mais graves, João Lopes aconselha "quem pode" a recorrer a centros de explicações ou a explicadores privados ("que têm de passar recibo", lembra). Dulce Gonçalves aponta, mais uma vez, o apoio que a legislação garante, referindo-se aos planos de recuperação que as escolas deverão estar a preparar neste momento para os alunos que têm três ou mais negativas.

Seja como for - "e porque não se obriga ninguém a aprender", insiste João Lopes - é necessário envolver o aluno no processo. E é aqui que entra a reflexão conjunta: "Achas que tiveste esta nota por que motivo? Que podes fazer para melhorar? E nós, que podemos fazer para te ajudar?", exemplificam os psicólogos, sublinhando que as medidas adoptadas - explicações, aulas de apoio, menos tempo de TV e mais de estudo - "devem ser apresentadas não como um castigo, mas como uma oportunidade".

Para os pais, o desafio não é menor. Entregar os filhos aos planos de recuperação da escola ou a explicadores privados não os dispensa de uma monitorização rigorosa, alerta Dulce Gonçalves. Pedro Sales Rosário volta a ser provocador: "Os pais não podem querer fazer grandes passeatas com a família no fim-de-semana e ao mesmo tempo exigir aos filhos que estudem. E acham confortável, quando os levam à escola, ligar o rádio? Pois talvez seja, mas não o façam: para quem se queixa de falta de tempo para conversar com os filhos, desperdiçar esses minutos é um luxo".


Proteger uns, responsabilizar os outros

Se as dificuldades de aprendizagem dos alunos do 2.º e 3.º ciclos devem ser atacadas de uma forma, as dos mais novos e as dos mais velhos exigem estratégias diferentes. Aos alunos do 1.º ciclo os pais devem estímulo e apoio, aos do secundário autonomia na busca de soluções.

Os primeiros quatro anos são simultaneamente os mais fáceis e os mais difíceis de acompanhar, diz João Lopes, professor da Universidade do Minho. "Em Portugal há tendência para se pensar que "mais mês menos mês o menino chega lá - e não chega"; e como não estão definidos critérios de medida do que uma criança deve ou não saber no fim de cada ano em termos de cálculo, escrita e leitura, com muita frequência as dificuldades passam despercebidas ou são desvalorizadas", analisa.

A facilidade está na abertura das crianças, nestas idades, a toda a ajuda, pelo que os pais devem estar atentos aos sinais, aconselha também a investigadora da Universidade de Lisboa, Dulce Gonçalves. "A criança tenta fazer os trabalhos de casa e não consegue? Ou não os quer fazer? Reage mal ao erro?", exemplifica. O importante é "não a deixar descolar do pelotão", procurando o apoio de um psicólogo educacional ou de um professor.

No secundário é diferente. "A um aluno do 10.º ano que agora está com três ou quatro negativas tem de ser dada autonomia - está na altura de assumir responsabilidades. Quer mudar de área, ir para um curso profissional, fazer outra coisa?...", sugere João Lopes.

"Deixar andar não é solução", diz este especialista em problemas de aprendizagem. "Se a exposição permanente ao fracasso é dolorosa em todas as fases, na adolescência pode ser devastadora, porque eles aprendem a defender-se. Como? Juntam-se aos que o valorizam, aos que, como eles, até podem ir às aulas mas não estudam e acabam por arranjar outras maneiras de passar o tempo", avisa.

PÚBLICO | 20-12-2009 | Graça Barbosa Ribeiro

 
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