antonioamaral Influente


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Colocada: Thu Aug 25, 2011 3:10 pm Assunto: “Alunos não lêem porque não os ensinam” |
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Um novo governo e outras políticas abrem sempre expectativas quanto a um novo ano lectivo. Provavelmente talvez devesse ser assim, porém, este ano não estamos expectantes mas sim apreensivos.
Tendo em conta a data do início do mandato desta nova governação do País, não havia tempo útil para, antes do início do ano escolar, se proceder uma necessária e profunda reforma do sistema do ensino básico e secundário, dado que a mesma tem de merecer uma alargada discussão pública e obter amplo consenso parlamentar. Deste modo esperar-se-iam medidas simples, práticas, que, não só melhorassem processos de aprendizagem, como garantissem às escolas maior autonomia.
Três únicas medidas foram anunciadas. Uma, o aumento de 24 para 26 no número alunos por sala no 1.º ciclo. Outra, o fim da área de projecto e do estudo acompanhado no 2.º e 3.º ciclo, disciplinas não curriculares com virtualidades mas que nunca granjearam consenso. As horas “libertas” com o fim destas disciplinas reverteram para a terceira medida, o aumento de horas lectivas para as disciplinas de Português e Matemática naqueles ciclos do ensino básico, medida essa que surgiu a “quente”, numa resposta populista após o anúncio dos péssimos resultados dos exames nacionais naquelas duas disciplinas.
São três medidas desinspiradas, burocráticas, estilo conserto de guarda-chuva por amolador.
Aumentar o número de alunos por sala afigura-se uma medida anti-pedagógica tão evidente, que só mesmo os neoliberais empedernidos não alcançam, empenhados como estão em cortar na despesa da Educação, como se essa fosse solução para a redução da dívida pública.
Mais horas para o Português e a Matemática, no 2.º e 3.º ciclo, talvez fosse uma boa medida, se a mesma tivesse sido acompanhada por uma alteração curricular no 1.º ciclo. O verdadeiro desprezo (1) que desde há várias décadas tem sido votado o ensino primário, pomposamente denominado 1.º ciclo, é a causa para os graves problemas de insucesso a jusante, ou seja, nos ciclos seguintes. Valorizou-se, com grande foguetório, a introdução do computador e do Inglês no 1.º ciclo. Mas a iliteracia e a total ignorância a matemática, e não só, das crianças que chegam ao 2.º ciclo é pavorosa, com a agravante da maleita prosseguir até ao secundário.
A ideologia da escola alegre e a brincar, do facilitismo, de um ensino centrado para passar nos exames finais, de modo a reduzir as taxas de abandono e insucesso escolar e dar a todos os alunos o diploma do 9.º ano (até há pouco o final do ensino obrigatório), tem consequências no próprio ensino superior, onde os alunos chegam, não só mal preparados a matemática, mas com graves problemas na língua portuguesa, sobretudo na escrita.
“Já em 1992 se sabia que as nossas crianças tinham dificuldades em aprender a ler. Após uma década, as provas de aferição mostram que nada mudou”, lê-se na revista Visão, de 19 de Fevereiro de 2004 (não é erro, é mesmo 2004!).
Neste artigo, a Doutora Inês Sim-Sim, professora da Escola Superior de Educação de Lisboa, pôs o dedo na ferida e afirmou que os “alunos não lêem porque não os ensinam”, acrescentando que o problema “está na falta de sistematização”, ou seja, “a maioria dos professores parte do princípio de que basta saber decifrar para saber ler e isso não é verdade”. Por culpa dos professores? Não, porque eles também são vítimas do mesmo sistema de ensino.
Passaram-se mais sete anos. O que mudou?
António Amaral
(1) O Plano Nacional de Leitura é uma excepção, um oásis.
(Crónica publicada na rubrica Educação do Portal Setúbal na Rede www.setubalnarede.pt em 25-08-11) |
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